Costumo chegar antes de todos os colegas no restaurante. Fico preparando as carnes da noite enquanto, do lado de fora, o dia vai chegando ao fim. Minha área de trabalho fica próxima à entrada. A porta de vidro é um bom recurso para quem quer ocupar um pouco mais a mente. Ao menos posso observar o movimento da rua entre um espeto e outro.
Com bastante frequência, batem na porta procurando emprego. Nessas horas quem está ali é eu; tenho que receber a pessoa, fazer perguntas básicas pra passar alguma informação à chefe e pegar o currículo. É uma situação que me deixa um tanto desconfortável, pois não posso solucionar o problema daquela pessoa. Ao menos, é uma oportunidade para tentar ajudar, mesmo que não haja vaga na churrascaria. Tento dar algum conselho ou indico outros estabelecimentos da redondeza que são novos e talvez estejam procurando pessoal. Normalmente são brasileiros recém chegados buscando o primeiro emprego onde não há tanta exigência em relação ao inglês. Acho importante questionar se realmente preferem um restaurante brasileiro. Para quem chegou há pouco tempo e não tem um inglês legal, pode ser bom no início, mas não vale a pena se acomodar nesses locais se a intenção é melhorar no idioma. Fazer um dinheirinho inicial é importante, tendo em vista o custo da vida em Sydney. Mas com o tempo, buscar algo que acrescente mais me parece a melhor atitude.
Naquele momento em que perguntam se há alguma vaga, sinto a insegurança da maioria que procura por emprego. O cara que está desse lado consegue medir algumas características da pessoa nas poucas palavras que troca com quem busca trabalho. Não sou especialista nisso, mas sinto que algumas mudanças nas atitudes dessas pessoas passariam uma imagem mais interessante para o empregador.
Lembro dos dois primeiros meses em que buscava emprego. Não é simples alguém pedir trabalho em uma função na qual não tem experiência. O ideal é tentar manter uma postura séria, passar a imagem de alguém responsável e seguro, mas nunca esquecendo a simpatia, o que é essencial, principalmente na área de hospitalidade. Não sei se eu conseguia me portar adequadamente quando pedia emprego, pois a insegurança e a vontade de conseguir logo uma vaga mexe um pouco com a firmeza da pessoa. Com a prática, entretanto, tudo fica mais fácil. Depois de algumas portas fechadas, a conversa começa a ficar melhor e a chance aparece quando menos se espera. Não é grande desafio nem motivo para dor de cabeça, mas ao mesmo tempo em que uns conseguem de primeira, outros podem levar algumas semanas a mais para ter sucesso.
Normalmente, quem manda e-mail perguntando sobre a vidaem Sydney traz essa questão: é muito difícil conseguir emprego? Sempre busco dar essas recomendações dos parágrafos anteriores e reforçar que raramente adianta ficar em casa e enviar dois currículos por semana pela internet. Sair às ruas e conversar com quem quer que seja nesses estabelecimentos amplia as oportunidades. Circular com 30 currículos na mão e conversar com 30 gerentes durante o dia sempre me parece mais eficaz.
Andei presenciando casos em que pessoas vão acompanhadas de amigos ou namorados buscar emprego por não falarem um bom inglês. Nessas ocasiões, os amigos falam pelo candidato. Particularmente, creio que isso só atrapalha. A pessoa que, mesmo sem falar bem a língua, encara sozinha essas situações mostra muito mais personalidade e atitude. Se o inglês ainda não é dos melhores, ter na ponta da língua um pequeno texto que vá falar tudo que o gerente precisa ouvir me parece mais interessante. Apresente-se, diga o que você procura, mostre interesse, pergunte se há alguma oportunidade, agradeça pela atenção, entregue o currículo e coloque-se à disposição caso uma vaga apareça. Talvez o sim venha do trigésimo primeiro gerente.
Já fui aconselhado por muita gente, logo no início, a mentir no currículo, afirmando que havia trabalhado em restaurantes e bares no Brasil para ter mais chances de ser contratado. Também não apoio esse tipo de conselho. Prefiro dizer que estou disposto a aprender. Os poucos gerentes com quem convivi sabem que, normalmente, o pessoal com esse perfil de estudante intercambista nunca teve experiência no ramo. O empregador percebe, já no primeiro dia, que a pessoa não tem ideia de como se trabalha em um ambiente daqueles.
Eles estão acostumados a ter gente de fora trabalhando. Gente que vem de seus escritórios e faculdades na Europa, Ásia ou América para trabalhar como garçom, motorista, assistente de cozinha, babá... Uma pessoa sem experiência para eles não seria novidade. Seria mais uma a ser ensinada, nada ruim para eles desde que pareça responsável, interessado e simpático. Fazendo as coisas da maneira correta e se dispondo a encontrar algumas portas fechadas, as oportunidades aparecem.
domingo, 23 de outubro de 2011
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
O restaurante oito meses depois
Já são oito meses trabalhando em um restaurante. Estranho estar em frente à churrasqueira e lembrar que costumava frequentar redações e as aulas da faculdade. Estranho não sentir-me como um estranho dentro da cozinha. Descobri que também levo jeito para isso e que a vida pode ser surpreendente. Não que eu queira abandonar o jornalismo para virar assador, mas percebi que podemos descobrir outras possibilidades jamais sequer cogitadas. Foi o que aconteceu com um exemplo bem próximo, Nick, cuja trajetória acompanho desde os seis anos. Estudava para dar aulas de matemática, quando veio à Austrália e decidiu viver da gastronomia.
Muito mais do que lidar com carne, carvão e fogo, essa atividade proporciona situações peculiares. Seu Miguel, assunto de um post de abril, segue firme e forte, comendo sua picanha de segunda a sexta. Hoje, passados alguns meses, viramos amigos. Ele, que viveu de Getúlio a Dilma, é uma enciclopédia viva. Não fosse a churrascaria, eu não teria a chance de trocar experiências com alguém que fala nove línguas e que conheceu um quinto do Planeta Terra. Uma aula de história quase diária, das 17h às 17h45. Hoje, guardo com carinho uma moeda de prata com desenhos apagados. Uma relíquia de 800 anos de história que ganhei do colecionador Seu Miguel. Objeto cujo valor não está naquilo que pouco aparece de sua superfície mas no que 800 anos de história representam.
Depois de uns meses, também aprimoramos a própria função e adquirimos mais segurança e conforto para exercê-la. Com o tempo, pude passar a observar com mais atenção a reação dos clientes quando provam algo que preparo. Consigo conversar com eles e medir sua satisfação após um jantar. Observar o contentamento ou, às vezes, certa insatisfação na reação dos clientes aumenta a vontade de se superar a cada dia. Isso prova o valor que acabamos dando àquela nova atividade. A grande maioria dos colegas também nunca havia trabalhado nessa área. Conseguimos a façanha de conciliar perfeitamente amizade e trabalho. Juntos fazemos o restaurante funcionar com qualidade. Todos em constante aprendizado e tirando suas lições a cada situação.
Acabamos nos adaptando a muita coisa em função da profissão, mas não é fácil deixar de estranhar algumas situações. É difícil, por exemplo, se acostumar a jantar às seis horas da tarde (duas horas antes de anoitecer) como fazem muitos clientes. Ver grupos de vinte adolescentes comemorando um aniversário em uma janta comportada e silenciosa também ainda surpreende. Também é sempre curioso notar a dificuldade dos clientes em apreciar um exótico coração de galinha servido no espeto. São comportamentos, inclusive os pequenos atos, que revelam outro modo de ser. Não fosse por essas situações, não seríamos capazes de quebrar tabus e preconceitos.
As pessoas crescem a partir das experiências, das novidades que surgem. Quanto mais situações são vividas, mais experiente uma pessoa se torna. E são essas as pessoas mais interessantes. Não é a toa que me agrada tanto conversar com Seu Miguel. Quem sabe um dia terei tanta história para contar quanto ele...
Muito mais do que lidar com carne, carvão e fogo, essa atividade proporciona situações peculiares. Seu Miguel, assunto de um post de abril, segue firme e forte, comendo sua picanha de segunda a sexta. Hoje, passados alguns meses, viramos amigos. Ele, que viveu de Getúlio a Dilma, é uma enciclopédia viva. Não fosse a churrascaria, eu não teria a chance de trocar experiências com alguém que fala nove línguas e que conheceu um quinto do Planeta Terra. Uma aula de história quase diária, das 17h às 17h45. Hoje, guardo com carinho uma moeda de prata com desenhos apagados. Uma relíquia de 800 anos de história que ganhei do colecionador Seu Miguel. Objeto cujo valor não está naquilo que pouco aparece de sua superfície mas no que 800 anos de história representam.
Depois de uns meses, também aprimoramos a própria função e adquirimos mais segurança e conforto para exercê-la. Com o tempo, pude passar a observar com mais atenção a reação dos clientes quando provam algo que preparo. Consigo conversar com eles e medir sua satisfação após um jantar. Observar o contentamento ou, às vezes, certa insatisfação na reação dos clientes aumenta a vontade de se superar a cada dia. Isso prova o valor que acabamos dando àquela nova atividade. A grande maioria dos colegas também nunca havia trabalhado nessa área. Conseguimos a façanha de conciliar perfeitamente amizade e trabalho. Juntos fazemos o restaurante funcionar com qualidade. Todos em constante aprendizado e tirando suas lições a cada situação.
Acabamos nos adaptando a muita coisa em função da profissão, mas não é fácil deixar de estranhar algumas situações. É difícil, por exemplo, se acostumar a jantar às seis horas da tarde (duas horas antes de anoitecer) como fazem muitos clientes. Ver grupos de vinte adolescentes comemorando um aniversário em uma janta comportada e silenciosa também ainda surpreende. Também é sempre curioso notar a dificuldade dos clientes em apreciar um exótico coração de galinha servido no espeto. São comportamentos, inclusive os pequenos atos, que revelam outro modo de ser. Não fosse por essas situações, não seríamos capazes de quebrar tabus e preconceitos.
As pessoas crescem a partir das experiências, das novidades que surgem. Quanto mais situações são vividas, mais experiente uma pessoa se torna. E são essas as pessoas mais interessantes. Não é a toa que me agrada tanto conversar com Seu Miguel. Quem sabe um dia terei tanta história para contar quanto ele...
domingo, 11 de setembro de 2011
Um estranho em casa
Como de costume, estávamos reunidos na sala. Parte do pessoal da casa e alguns dos sempre presentes amigos testemunharam a história mais inusitada dos últimos tempos. Aconteceu na noite dessa sexta-feira.
Já de madrugada, as primas americanas chegavam da balada. Uma delas acompanhada por um cara grande, que entrou cheio de marra e músculos, daquele tipo cujo porte físico impõe um respeito próximo do medo. Visivelmente, não haviam tomado poucas na festa. Os dois subiram rindo e cambaleando para o quarto enquanto a outra americana, desacompanhada, juntou-se a nós. Seguimos a conversa noite adentro.
Os ponteiros já marcavam algo em torno de 4 horas quando o rapaz desceu as escadas. Para a nossa surpresa, não vestia mais as roupas com as quais havia entrado na casa, tudo o que trazia era um lençol cobrindo sua cintura e as partes íntimas. Chegou à sala sem falar nada e sentou-se em um dos sofás. Obviamente o álcool ainda fazia efeito no rapaz, que ficou entre nós com cara de perdido. Estranhamos, mas seguimos o diálogo sem dar atenção a ele. Passados poucos minutos, tentou iniciar uma conversa com a americana que chegara desacompanhada e a abraçou. Sequer lembrava quem era a garota que o havia trazido. Ela se desvencilhou do rapaz e explicou que não estava com ele. O estranho, contudo, não parecia estar entendendo nada, mal sabia como chegara na casa.
- Um cara acabou de me tirar do quarto. Eu fui ao banheiro e, quando voltei, o cara me expulsou de lá - contou o rapaz nada sóbrio.
Logo nos veio à cabeça o alemão que mora ao lado do quarto das americanas. Seria uma cena bizarra! O grandão bêbado saindo do quarto para ir ao banheiro só com o cobertor ao redor da cintura e, na volta, trocando de quarto. Imaginamos o alemão Patrick expulsando o cara a chutes na frente de sua namorada Susan. Ele teria sorte por não ter maiores problemas com o nosso flatmate, que não parece ter a paciência como um de seus maiores valores.
O cara desconhecido e semi nu continuava entre nós na sala. Ninguém sabia seu nome ou de onde viera. Ele devia ter tomado litros e litros de álcool para ficar naquele estado. Sequer teve a perspicácia de pensar que teria entrado no quarto errado. Tampouco percebeu que havia outra porta, que poderia ser a certa.
Com medo de entrar no quarto e incomodar novamente o cara que o teria expulsado, o grandão pediu que ajudássemos a pegar suas coisas. Subiu com a americana, que abriu o quarto correto, onde estava sua prima já dormindo. O estranho viu que não havia nenhum homem lá e ficou. Decidimos encerrar a noite por ali. Passamos pelo andar dos alemães e das americanas e subimos até nosso quarto, no sótão, onde João dormia desde cedo, já que trabalharia na manhã seguinte. Ao ouvir o barulho da nossa chegada, João falou, indignado:
- Vocês não sabem o que aconteceu! Um cara entrou aqui mais cedo e deitou na minha cama enquanto eu estava dormindo. Senti alguma coisa e acordei. Ele estava beijando o meu ombro! Empurrei ele para fora da cama e mandei sair. Eu disse que ele não estava no quarto certo e ele discordou. Repeti que era o quarto errado e sabe o que ele respondeu? Ele falou, olhando nos meus olhos, que se aquele era o quarto errado, ele não queria o quarto certo.
Rimos muito.
Estávamos enganados em nossa hipótese, o cara que havia expulsado o estranho do quarto era o João, não Patrick, o alemão. Tentamos avaliar o que aconteceu, mas nem tudo ficou tão claro. Como aquele cara poderia ter se enganado dessa maneira? O quarto das americanas era no andar de baixo. Ele teria saído do banheiro e subido as escadas, por onde nunca tinha passado, pensando ser o caminho de volta? O grandão estaria tão bêbado assim ou não teria ficado satifeito com a americana e decidiu arriscar um quarto diferente procurando um outro tipo de companhia?
Já de madrugada, as primas americanas chegavam da balada. Uma delas acompanhada por um cara grande, que entrou cheio de marra e músculos, daquele tipo cujo porte físico impõe um respeito próximo do medo. Visivelmente, não haviam tomado poucas na festa. Os dois subiram rindo e cambaleando para o quarto enquanto a outra americana, desacompanhada, juntou-se a nós. Seguimos a conversa noite adentro.
Os ponteiros já marcavam algo em torno de 4 horas quando o rapaz desceu as escadas. Para a nossa surpresa, não vestia mais as roupas com as quais havia entrado na casa, tudo o que trazia era um lençol cobrindo sua cintura e as partes íntimas. Chegou à sala sem falar nada e sentou-se em um dos sofás. Obviamente o álcool ainda fazia efeito no rapaz, que ficou entre nós com cara de perdido. Estranhamos, mas seguimos o diálogo sem dar atenção a ele. Passados poucos minutos, tentou iniciar uma conversa com a americana que chegara desacompanhada e a abraçou. Sequer lembrava quem era a garota que o havia trazido. Ela se desvencilhou do rapaz e explicou que não estava com ele. O estranho, contudo, não parecia estar entendendo nada, mal sabia como chegara na casa.
- Um cara acabou de me tirar do quarto. Eu fui ao banheiro e, quando voltei, o cara me expulsou de lá - contou o rapaz nada sóbrio.
Logo nos veio à cabeça o alemão que mora ao lado do quarto das americanas. Seria uma cena bizarra! O grandão bêbado saindo do quarto para ir ao banheiro só com o cobertor ao redor da cintura e, na volta, trocando de quarto. Imaginamos o alemão Patrick expulsando o cara a chutes na frente de sua namorada Susan. Ele teria sorte por não ter maiores problemas com o nosso flatmate, que não parece ter a paciência como um de seus maiores valores.
O cara desconhecido e semi nu continuava entre nós na sala. Ninguém sabia seu nome ou de onde viera. Ele devia ter tomado litros e litros de álcool para ficar naquele estado. Sequer teve a perspicácia de pensar que teria entrado no quarto errado. Tampouco percebeu que havia outra porta, que poderia ser a certa.
Com medo de entrar no quarto e incomodar novamente o cara que o teria expulsado, o grandão pediu que ajudássemos a pegar suas coisas. Subiu com a americana, que abriu o quarto correto, onde estava sua prima já dormindo. O estranho viu que não havia nenhum homem lá e ficou. Decidimos encerrar a noite por ali. Passamos pelo andar dos alemães e das americanas e subimos até nosso quarto, no sótão, onde João dormia desde cedo, já que trabalharia na manhã seguinte. Ao ouvir o barulho da nossa chegada, João falou, indignado:
- Vocês não sabem o que aconteceu! Um cara entrou aqui mais cedo e deitou na minha cama enquanto eu estava dormindo. Senti alguma coisa e acordei. Ele estava beijando o meu ombro! Empurrei ele para fora da cama e mandei sair. Eu disse que ele não estava no quarto certo e ele discordou. Repeti que era o quarto errado e sabe o que ele respondeu? Ele falou, olhando nos meus olhos, que se aquele era o quarto errado, ele não queria o quarto certo.
Rimos muito.
Estávamos enganados em nossa hipótese, o cara que havia expulsado o estranho do quarto era o João, não Patrick, o alemão. Tentamos avaliar o que aconteceu, mas nem tudo ficou tão claro. Como aquele cara poderia ter se enganado dessa maneira? O quarto das americanas era no andar de baixo. Ele teria saído do banheiro e subido as escadas, por onde nunca tinha passado, pensando ser o caminho de volta? O grandão estaria tão bêbado assim ou não teria ficado satifeito com a americana e decidiu arriscar um quarto diferente procurando um outro tipo de companhia?
sábado, 10 de setembro de 2011
Nova casa, novas companhias
Há cerca de um mês, mudei novamente de casa. Sabia que seria algo definitivo, a quarta e última casa desde janeiro. Eu voltaria a morar com Nick, o único remanescente do grupo inicial. Lá ficaríamos até o retorno ao Brasil. Teríamos a presença de João, grande companheiro e colega de trabalho. Nós seríamos o trio que viveria as histórias durante o restante do ano. E a casa seria o novo ponto de encontro de todo o grupo. Conseguimos o quarto mais legal em que já havíamos entrado. Teríamos o sótão somente para nós, com o teto inclinado e uma pia peculiarmente instalada ao lado da cama, além de um beliche e de uma disputada cama de casal. Não foi difícil nos sentirmos tão bem no quarto quanto nos nossos do Brasil.
Como se não bastasse a comodidade de nos sentirmos em casa, formamos uma família com os flatmates. No nosso segundo dia, participamos da festa de despedida da francesa que morava no quarto de baixo. Lamentávamos a ausência que ela faria. Ela deixaria vaga para novos moradores. No outro quarto, já morava um casal alemão com quem logo teríamos um contato bastante próximo, Patrick e a angelical (se é que existe uma palavra que possa defini-la por si só) Susan.
Dois dias após a saída da francesa Ga Elle, Leo, um dos responsáveis pela casa, bateu na porta de nosso quarto para apresentar-nos a duas americanas, Pamela e Kerri, primas que visitavam a casa a procura de acomodação. Provavelmente a curta e agradável conversa que tivemos naquela ocasião, combinada com o ambiente acolhedor da casa, foi determinante para a decisão delas, que, no dia seguinte, traziam suas malas para o quarto de baixo. Casa preenchida. Não demorou para que todos se conhecessem melhor e se tornassem amigos.
Quando vivemos cercados por pessoas de quem gostamos, nossa vida fica muito mais agradável. Eu, Nick, João, Patrick, Susan, Pamela e Kerri criamos uma conexão e acabamos formando uma família. Sempre há alguém presente para dividir a sensação de ressaca quando descemos as escadas para tomar café da manhã às duas da tarde. Sempre há alguém disposto a conversar sobre seus trabalhos e saudades ou mesmo sobre temas como eutanásia, política internacional e nazismo até o meio da madrugada. Sempre há alguém querendo companhia para passar uma tarde no parque ou para organizar uma festa com a casa de trás. Sempre há alguém de pijama que se anima, à uma hora da madrugada, e topa trocar de roupa para sair, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho. Por mais que todos trabalhem e tenham suas ocupações, não há momento em que não se encontre uma ou sete boas companhias dentro dessa casa. O grupo aumenta à noite, quando colegas e amigos se juntam por aqui após o trabalho. Definitivamente, não seremos apenas três vivendo todas as histórias destes últimos meses.
Como se não bastasse a comodidade de nos sentirmos em casa, formamos uma família com os flatmates. No nosso segundo dia, participamos da festa de despedida da francesa que morava no quarto de baixo. Lamentávamos a ausência que ela faria. Ela deixaria vaga para novos moradores. No outro quarto, já morava um casal alemão com quem logo teríamos um contato bastante próximo, Patrick e a angelical (se é que existe uma palavra que possa defini-la por si só) Susan.
Dois dias após a saída da francesa Ga Elle, Leo, um dos responsáveis pela casa, bateu na porta de nosso quarto para apresentar-nos a duas americanas, Pamela e Kerri, primas que visitavam a casa a procura de acomodação. Provavelmente a curta e agradável conversa que tivemos naquela ocasião, combinada com o ambiente acolhedor da casa, foi determinante para a decisão delas, que, no dia seguinte, traziam suas malas para o quarto de baixo. Casa preenchida. Não demorou para que todos se conhecessem melhor e se tornassem amigos.
Quando vivemos cercados por pessoas de quem gostamos, nossa vida fica muito mais agradável. Eu, Nick, João, Patrick, Susan, Pamela e Kerri criamos uma conexão e acabamos formando uma família. Sempre há alguém presente para dividir a sensação de ressaca quando descemos as escadas para tomar café da manhã às duas da tarde. Sempre há alguém disposto a conversar sobre seus trabalhos e saudades ou mesmo sobre temas como eutanásia, política internacional e nazismo até o meio da madrugada. Sempre há alguém querendo companhia para passar uma tarde no parque ou para organizar uma festa com a casa de trás. Sempre há alguém de pijama que se anima, à uma hora da madrugada, e topa trocar de roupa para sair, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho. Por mais que todos trabalhem e tenham suas ocupações, não há momento em que não se encontre uma ou sete boas companhias dentro dessa casa. O grupo aumenta à noite, quando colegas e amigos se juntam por aqui após o trabalho. Definitivamente, não seremos apenas três vivendo todas as histórias destes últimos meses.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A reta final
E quando eu estiver no Brasil fazendo tudo o que fazia antes de 2011... Será que farei tudo da mesma forma? Será que verei a rua onde morei por 20 anos da mesma maneira que a via antes de vir à Austrália? Será que as belezas e defeitos do meu local de origem mudarão? Será que os conceitos serão outros? Será que terei vontade de voltar para a Oceania? Será que terei de buscar um terceiro conceito em outro lugar?
Como será estar de volta a um lugar após viver intensa e exclusivamente um ambiente muito distinto? Apenas mais três meses. Tenho certeza que encerrarei uma parte da minha história que nunca mais terei. Ao mesmo tempo ganharei a melhor história da minha vida. Será a despedida por tempo indeterminado de pessoas que fizeram parte das minhas 24 horas diárias como qualquer outro grande amigo dos velhos tempos já fez. Deixarei de ver, possívelmente para sempre, aqueles lugares que foram meu lar e o meu único canto durante alguns dos momentos mais importantes da minha vida.
A sensação de saudade prévia da Austrália cresce da mesma maneira que, do lado oposto, bate a ansiedade de voltar para casa, rever os grandes amigos, contar as novidades e comer uma comida de casa.
O que resta é a ótima vontade de fazer tudo o que puder para aproveitar os últimos tempos dessa vida incrível. São três meses para aproveitar tudo de melhor que se conheceu e tudo que ainda se tem para conhecer. Será o tempo em que trabalho já não preocupa mais, em que os estudos já estão encaminhados e em que as condições financeiras já estão de acordo com o local. Talvez por isso seja tão difícil deixar tudo isso para trás, uma rotina já está formada e uma vida já foi montada. Talvez por isso muita gente resolva ficar para sempre, pois a vida pode ser tão boa ou melhor quanto a que tínhamos no Brasil.
Nessa reta final, é hora de aproveitarmos a liberdade para fazer o que quisermos. O que importa é que estejamos no aeroporto na hora do voo de volta. Não se trata de ser inconsequente. Vamos fazer esses últimos momentos acontecerem ainda mais intensamente, mas tudo de acordo com a maturidade que ganhamos no desafio que é experimentar essa vida. Não há motivos para preocupar-se com em carreira, currículos e compromissos. Temos reservada, no Brasil, uma vida que nos espera. Aquela terá preocupações e deveres diários, coisas que não fazem parte do cotidiano dos sonhos, mas que são inevitáveis. Imagino que agora será melhor encarar essa vida real à qual voltarei. Sinto que terei experimentado o outro lado da vida, terei vivido algo mais próximo do cotidiano dos sonhos, com menos compromissos e preocupações. Essa é uma grande experiência pelo fato de que se experimenta uma vida diferente e não há nada muito maior que possa ser experimentado.
Deixarei muita coisa para trás e voltarei a ter o que sempre tive. Mas muitas coisas devem retornar comigo. Provavelmente alguns gostos e hábitos terão mudado. Saberei dar mais valor aquilo que sempre tive ao meu lado e que deveria ter apreciado mais. Talvez só perceba no Brasil algumas mudanças. Não será tão fácil voltar para casa. A distância geográfica se compara às diferenças das duas vidas e à possibilidade de viver aquilo novamente. Pode ser complicado, mas é realmente satisfatório por saber que foi possível aproveitar esse tempo ao máximo e que verei sim de outro modo aquela rua em que morei durante 20 anos.
Como será estar de volta a um lugar após viver intensa e exclusivamente um ambiente muito distinto? Apenas mais três meses. Tenho certeza que encerrarei uma parte da minha história que nunca mais terei. Ao mesmo tempo ganharei a melhor história da minha vida. Será a despedida por tempo indeterminado de pessoas que fizeram parte das minhas 24 horas diárias como qualquer outro grande amigo dos velhos tempos já fez. Deixarei de ver, possívelmente para sempre, aqueles lugares que foram meu lar e o meu único canto durante alguns dos momentos mais importantes da minha vida.
A sensação de saudade prévia da Austrália cresce da mesma maneira que, do lado oposto, bate a ansiedade de voltar para casa, rever os grandes amigos, contar as novidades e comer uma comida de casa.
O que resta é a ótima vontade de fazer tudo o que puder para aproveitar os últimos tempos dessa vida incrível. São três meses para aproveitar tudo de melhor que se conheceu e tudo que ainda se tem para conhecer. Será o tempo em que trabalho já não preocupa mais, em que os estudos já estão encaminhados e em que as condições financeiras já estão de acordo com o local. Talvez por isso seja tão difícil deixar tudo isso para trás, uma rotina já está formada e uma vida já foi montada. Talvez por isso muita gente resolva ficar para sempre, pois a vida pode ser tão boa ou melhor quanto a que tínhamos no Brasil.
Nessa reta final, é hora de aproveitarmos a liberdade para fazer o que quisermos. O que importa é que estejamos no aeroporto na hora do voo de volta. Não se trata de ser inconsequente. Vamos fazer esses últimos momentos acontecerem ainda mais intensamente, mas tudo de acordo com a maturidade que ganhamos no desafio que é experimentar essa vida. Não há motivos para preocupar-se com em carreira, currículos e compromissos. Temos reservada, no Brasil, uma vida que nos espera. Aquela terá preocupações e deveres diários, coisas que não fazem parte do cotidiano dos sonhos, mas que são inevitáveis. Imagino que agora será melhor encarar essa vida real à qual voltarei. Sinto que terei experimentado o outro lado da vida, terei vivido algo mais próximo do cotidiano dos sonhos, com menos compromissos e preocupações. Essa é uma grande experiência pelo fato de que se experimenta uma vida diferente e não há nada muito maior que possa ser experimentado.
Deixarei muita coisa para trás e voltarei a ter o que sempre tive. Mas muitas coisas devem retornar comigo. Provavelmente alguns gostos e hábitos terão mudado. Saberei dar mais valor aquilo que sempre tive ao meu lado e que deveria ter apreciado mais. Talvez só perceba no Brasil algumas mudanças. Não será tão fácil voltar para casa. A distância geográfica se compara às diferenças das duas vidas e à possibilidade de viver aquilo novamente. Pode ser complicado, mas é realmente satisfatório por saber que foi possível aproveitar esse tempo ao máximo e que verei sim de outro modo aquela rua em que morei durante 20 anos.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
A volta às aulas
Optar por ter aulas aos sábados e domingos não foi fácil, ainda mais quando a melhor opção de curso não era o que mais me agradava, business. Também não será uma tarefa simples chegar pontualmente às 7h30. Contudo, com o primeiro final de semana de aula, estou percebendo que fiz a escolha certa.
Por sorte, fui colocado em uma turma interessante, com colegas da América do Sul, Ásia, Europa, Oceania e, especialmente, dos Estados Unidos. Se me propuz a estudar em condições propícias para o tédio, tive de encontrar saídas para isso. A primeira delas foi descoberta logo nos primeiros minutos, a loira norte-americana de beleza e sotaque cinematográficos. Descobri logo de cara que ela tem um namorado brasileiro, nada que me impeça de reservar uns minutos de tédio para imaginar ela dando suas aulas de ioga. Sim, ela é professora de ioga (o que explica a forma física impecável).
A verdade é que a melhor arma para o combate do tédio é a observação. Cada local ou indivíduo tem suas peculiaridades. Basta buscar as características mais incomuns das pessoas e prestar atenção nas situações que vivemos para ver a graça da vida. Muito mais do que um filme de comédia, a vida é engraçada. As pessoas que estão ao nosso redor podem ser tão curiosas quanto os personagens de um longa-metragem e as cenas também se repetem como nos maiores clichês do cinema. Basta observar...
Em qualquer sala de aula do mundo, independentemente de cultura, as turmas são iguais. Há aqueles que sempre chegam com duas horas de atraso e sentam no fundo da classe pensando não terem sido notados pelo professor. Totalmente desinteressados no assunto da aula, baixam suas cabeças, tapam os olhos com uma mão e seguram a caneta com a outra, fingindo escrever enquanto dormem. Também há aqueles que fazem questão de sentar na primeira fileira e de participar da aula a todo momento (normalmente com intervenções desnecessárias), desagrandando ao professor tanto quanto os alunos do fundo.
Tudo isso que eu via no Brasil tenho notado também por aqui. Mas o que mais tem me entretido nesses primeiros dias de aula são os personagens da turma. Entre essas figuras, está o Jack Chan tailandês, o cara da gargalhada muda, a japonesa que sonha ser a garçonete mais bem-sucedida de Sydney, o coreano que come duas espigas de milho cruas no intervalo, o holandês que ambiciona lucrar 1 milhão de dólares em 2011 com a empresa que ainda não abriu e o lutador de judô húngaro com 145 quilos visivelmente interessado no patinador espanhol quarentão que assiste Harry Potter durante a aula. Não se trata de deboche, apenas de observar os detalhes para buscar um ângulo diferente e mais interessante do que poderia ser apenas um momento entediante e sem atividade alguma na sala de aula.
Os momentos sérios das aulas também tem rendido. Discutindo a respeito de planejamento no ambiente de trabalho, o professor (chefe de cozinha durante 30 anos) questionou-me sobre o que faço. Expliquei minhas funções e ele comentou que já havia trabalhado em um restaurante com o mesmo tipo de serviço. Foi aí que abriu ainda mais meus olhos sobre o aprendizado que posso ter com esse emprego. Eu já valorizava muito essa experiência que venho tendo, mas percebi que a capacidade de trabalhar em equipe e a responsabilidade exigida dentro de um restaurante, por exemplo, podem ser extremamente valiosas em funções bastante distintas no futuro.
Trabalhar como churrasqueiro e estudar business são, definitivamente, atividades de que nunca imaginei participar, que não tem ligação direta com a carreira que imagino seguir e que podem não adicionar muito ao meu currículo, mas experiências e conhecimentos em campos diferentes podem render muito mais. Hoje percebo que uma única aula de business pode ampliar minha noção a respeito de áreas desconhecidas, mudar a visão que tenho daquilo em que já estou envolvido e ainda render momentos divertidos.
Fim de intervalo e hora de voltar para a sala. É a vez de o patinador quarentão e de o comedor de milho cru apresentarem seus trabalhos.
Por sorte, fui colocado em uma turma interessante, com colegas da América do Sul, Ásia, Europa, Oceania e, especialmente, dos Estados Unidos. Se me propuz a estudar em condições propícias para o tédio, tive de encontrar saídas para isso. A primeira delas foi descoberta logo nos primeiros minutos, a loira norte-americana de beleza e sotaque cinematográficos. Descobri logo de cara que ela tem um namorado brasileiro, nada que me impeça de reservar uns minutos de tédio para imaginar ela dando suas aulas de ioga. Sim, ela é professora de ioga (o que explica a forma física impecável).
A verdade é que a melhor arma para o combate do tédio é a observação. Cada local ou indivíduo tem suas peculiaridades. Basta buscar as características mais incomuns das pessoas e prestar atenção nas situações que vivemos para ver a graça da vida. Muito mais do que um filme de comédia, a vida é engraçada. As pessoas que estão ao nosso redor podem ser tão curiosas quanto os personagens de um longa-metragem e as cenas também se repetem como nos maiores clichês do cinema. Basta observar...
Em qualquer sala de aula do mundo, independentemente de cultura, as turmas são iguais. Há aqueles que sempre chegam com duas horas de atraso e sentam no fundo da classe pensando não terem sido notados pelo professor. Totalmente desinteressados no assunto da aula, baixam suas cabeças, tapam os olhos com uma mão e seguram a caneta com a outra, fingindo escrever enquanto dormem. Também há aqueles que fazem questão de sentar na primeira fileira e de participar da aula a todo momento (normalmente com intervenções desnecessárias), desagrandando ao professor tanto quanto os alunos do fundo.
Tudo isso que eu via no Brasil tenho notado também por aqui. Mas o que mais tem me entretido nesses primeiros dias de aula são os personagens da turma. Entre essas figuras, está o Jack Chan tailandês, o cara da gargalhada muda, a japonesa que sonha ser a garçonete mais bem-sucedida de Sydney, o coreano que come duas espigas de milho cruas no intervalo, o holandês que ambiciona lucrar 1 milhão de dólares em 2011 com a empresa que ainda não abriu e o lutador de judô húngaro com 145 quilos visivelmente interessado no patinador espanhol quarentão que assiste Harry Potter durante a aula. Não se trata de deboche, apenas de observar os detalhes para buscar um ângulo diferente e mais interessante do que poderia ser apenas um momento entediante e sem atividade alguma na sala de aula.
Os momentos sérios das aulas também tem rendido. Discutindo a respeito de planejamento no ambiente de trabalho, o professor (chefe de cozinha durante 30 anos) questionou-me sobre o que faço. Expliquei minhas funções e ele comentou que já havia trabalhado em um restaurante com o mesmo tipo de serviço. Foi aí que abriu ainda mais meus olhos sobre o aprendizado que posso ter com esse emprego. Eu já valorizava muito essa experiência que venho tendo, mas percebi que a capacidade de trabalhar em equipe e a responsabilidade exigida dentro de um restaurante, por exemplo, podem ser extremamente valiosas em funções bastante distintas no futuro.
Trabalhar como churrasqueiro e estudar business são, definitivamente, atividades de que nunca imaginei participar, que não tem ligação direta com a carreira que imagino seguir e que podem não adicionar muito ao meu currículo, mas experiências e conhecimentos em campos diferentes podem render muito mais. Hoje percebo que uma única aula de business pode ampliar minha noção a respeito de áreas desconhecidas, mudar a visão que tenho daquilo em que já estou envolvido e ainda render momentos divertidos.
Fim de intervalo e hora de voltar para a sala. É a vez de o patinador quarentão e de o comedor de milho cru apresentarem seus trabalhos.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Lembranças das férias - A aeromoça
Conhecemos Robinson ainda em Bali. Desde lá, ele faria parte de todas as nossas aventuras durante as férias. Também brasileiro e também vivendo em Sydney, estava, assim como nós, em busca de praia e festa. Robinson uniu-se definitivamente a mim, Murillo, Dudi e Leonel. Formamos um time. Vivenciamos aventuras, fomos a lugares paradisíacos e conhecemos gente da Ásia, da Oceania e principalmente da Europa. Pois foi justamente uma européia que conquistou Robinson e que ficará guardada nas melhores lembranças de suas férias.
Estávamos já em Koh Phi Phi, na Tailândia, o último local que conheceríamos e também o mais belo. Se algum lugar na terra se aproxima do paraíso, esse lugar é Koh Phi Phi, uma ilha minúscula, sem carros, com água do mar quente e cristalina, cheia de jovens e de comida boa. Acordávamos para andar de barco entre as gigantescas rochas inexplicavelmente colocadas no meio do oceano, para mergulhar entre os peixes, para fazer trilhas e para comer dezenas de baratíssimos picolés. Apesar de toda a diversão sob a luz do sol, não parávamos de pensar, durante cada atividade, em como seria a noite nas festas à beira do mar.
Na primeira noite em Koh Phi Phi, a ansiedade superava o cansaço acumulado das duas semanas de férias que já haviam passado. Estávamos mais dispostos do que nunca. Chegando à orla, descobrimos que as noites naquela ilha seriam bem parecidas com as de Koh Phangan, à beira-mar, com competições valendo drinks e com os famosos baldinhos, combinações baratas (e de origem duvidosa) de bebidas servidas em baldes coloridos.
Robinson havia se perdido do grupo quando encontrou um de nós conversando com duas garotas. Seu amigo estava visivelmente interessado em uma delas. Robinson, porém, mal havia notado a garota loira que atraía a atenção do outro. Assim que os avistou, seus olhos se voltaram diretamente à morena. Eles foram apresentados e logo estavam conversando sentados na areia. A simpatia da morena parecia aumentar no decorrer da conversa. O luar refletido na água combinado com a beleza daquela orla faziam o momento se tornar especial. Robinson não parava de admirar aquela inglesa, Jolie, de 24 anos, linda como nenhuma outra inglesa já vista por ele. Ele não imaginava que poderia se interessar ainda mais pela garota. Até que começaram a falar sobre suas profissões.
- Eu fico de férias aqui em Phi Phi até depois de amanhã, quando volto para Dubai - contou a inglesa.
- Para Dubai? Mas você não é inglesa? - questionou.
- Sou, mas moro em Dubai por causa da minha profissão - respondeu a garota.
- O que você faz?
- Sou comissária de bordo da Emirates.
A informação demorou alguns segundos para ser processada. Ela era comissária de bordo! Linda, simpática, 24 anos, inglesa, residente em Dubai e AEROMOÇA. Aeromoça da Emirates! Robinson sempre sonhara em conhecer uma aeromoça. Sempre que andava de avião, admirava os sorrisos e a simpatia das diferentes mulheres que o atendiam. Sempre imaginara o dia em que teria a oportunidade de desarmar o penteado impecável de uma aeromoça. Não era à toa que o penteado daquela garota tinha chamado sua atenção...
Robinson estava ainda mais encantado. Continuou a conversa interessadíssimo. Queria ouvir as histórias de cada país para onde ela havia viajado. Queria saber tudo sobre a vida nos ares. Queria desvendar os mistérios da intimidade de uma aeromoça.
No dia seguinte, Robinson falou inúmeras vezes sobre sua longa noite para seus amigos. Enquanto eles estavam ansiosos por mais uma festa, ele só pensava em encontrar novamente a inglesa.
Chegou cedo à festa para procurá-la. Acharam-se rapidamente como se estivessem em busca um do outro. Tiveram uma conversa tão agradável quanto a da noite anterior e dançaram, no bar mais vazio da orla, a música preferida da inglesa antes de saírem da praia abraçados. Já pela manhã, se despediram no hotel de Robinson.
No terceiro dia em Koh Phi Phi, Robinson contaria sobre a segunda noite perfeita que tivera ao lado da inglesa. Seus amigos contestavam a ideia de ele ver a garota todas as noites ao invés de curtir com eles e de conhecer pessoas diferentes, mas para ele não havia maneira melhor de aproveitar ao máximo aquele lugar. Estava decidido a encontrá-la novamente.
A vontade de rever Jodie não havia diminuído, mas uma forte febre pegou Robinson de surpresa e o deixou indisposto para aproveitar a noite intensamente. De qualquer modo, foi à praia procurar por Jolie. Afinal, era a última noite da inglesa na ilha antes de voltar a Dubai.
Mais uma vez, encontraram-se nas primeiras horas de festa. Sob uma chuva insistente, Robinson não estava bem.
- Jolie, eu não estou me sentindo bem. Preciso voltar para o quarto para dormir e me recuperar. Vim aqui só para me despedir de você.
- Que pena... Mas o que você tem? - Jolie falou.
- Estou com febre, acho que tenho descansado muito pouco...
- Tudo bem, melhor dormir então. Mas não precisa se despedir, ainda vamos nos encontrar - falou antes de beijá-lo.
Robinson voltou ao hotel imaginando se realmente voltaria a ver Jolie. Cansado e febril, dormiu profundamente.
- Ei, acorda... - Alguém cochichou, cutucando o pé de Robinson.
Com a pouca luz que entrava pela janela, Robinson reconheceu a silhueta de Jolie dentro de seu quarto ainda molhada pela chuva.
- Falei que ainda nos veríamos. A festa lá na praia acabou. Vim te dizer boa noite - disse Jolie com um tom delicado.
- Que surpresa! Não esperava que viesse até aqui... Aliás, como você chegou? - perguntou Robinson.
- Lembro exatamente o caminho que fizemos ontem. Eu ia bater na porta, mas ela estava aberta e eu entrei. Eu queria te dar mais um beijo. Foi muito bom te conhecer! - respondeu Jolie.
- Gostei muito de te conhecer também. Fiquei feliz por você vir se despedir.
- Não precisamos nos despedir. Esqueceu que sou aeromoça? Nos próximos meses vou para Sydney pelo menos uma vez, então a gente se vê. E, quando você já estiver no Brasil, talvez eu passe por lá também. É só combinarmos - falou sorridente.
Com a aparição no meio da madrugada, Jolie conquistou Robinson definitivamente e ele passou a gostar mais do que nunca de aeromoças. Hoje, em Sydney, Robinson segue esperando o dia em que poderá desarmar mais uma vez o penteado de Jolie.
Robinson havia se perdido do grupo quando encontrou um de nós conversando com duas garotas. Seu amigo estava visivelmente interessado em uma delas. Robinson, porém, mal havia notado a garota loira que atraía a atenção do outro. Assim que os avistou, seus olhos se voltaram diretamente à morena. Eles foram apresentados e logo estavam conversando sentados na areia. A simpatia da morena parecia aumentar no decorrer da conversa. O luar refletido na água combinado com a beleza daquela orla faziam o momento se tornar especial. Robinson não parava de admirar aquela inglesa, Jolie, de 24 anos, linda como nenhuma outra inglesa já vista por ele. Ele não imaginava que poderia se interessar ainda mais pela garota. Até que começaram a falar sobre suas profissões.
- Eu fico de férias aqui em Phi Phi até depois de amanhã, quando volto para Dubai - contou a inglesa.
- Para Dubai? Mas você não é inglesa? - questionou.
- Sou, mas moro em Dubai por causa da minha profissão - respondeu a garota.
- O que você faz?
- Sou comissária de bordo da Emirates.
A informação demorou alguns segundos para ser processada. Ela era comissária de bordo! Linda, simpática, 24 anos, inglesa, residente em Dubai e AEROMOÇA. Aeromoça da Emirates! Robinson sempre sonhara em conhecer uma aeromoça. Sempre que andava de avião, admirava os sorrisos e a simpatia das diferentes mulheres que o atendiam. Sempre imaginara o dia em que teria a oportunidade de desarmar o penteado impecável de uma aeromoça. Não era à toa que o penteado daquela garota tinha chamado sua atenção...
Robinson estava ainda mais encantado. Continuou a conversa interessadíssimo. Queria ouvir as histórias de cada país para onde ela havia viajado. Queria saber tudo sobre a vida nos ares. Queria desvendar os mistérios da intimidade de uma aeromoça.
No dia seguinte, Robinson falou inúmeras vezes sobre sua longa noite para seus amigos. Enquanto eles estavam ansiosos por mais uma festa, ele só pensava em encontrar novamente a inglesa.
Chegou cedo à festa para procurá-la. Acharam-se rapidamente como se estivessem em busca um do outro. Tiveram uma conversa tão agradável quanto a da noite anterior e dançaram, no bar mais vazio da orla, a música preferida da inglesa antes de saírem da praia abraçados. Já pela manhã, se despediram no hotel de Robinson.
No terceiro dia em Koh Phi Phi, Robinson contaria sobre a segunda noite perfeita que tivera ao lado da inglesa. Seus amigos contestavam a ideia de ele ver a garota todas as noites ao invés de curtir com eles e de conhecer pessoas diferentes, mas para ele não havia maneira melhor de aproveitar ao máximo aquele lugar. Estava decidido a encontrá-la novamente.
A vontade de rever Jodie não havia diminuído, mas uma forte febre pegou Robinson de surpresa e o deixou indisposto para aproveitar a noite intensamente. De qualquer modo, foi à praia procurar por Jolie. Afinal, era a última noite da inglesa na ilha antes de voltar a Dubai.
Mais uma vez, encontraram-se nas primeiras horas de festa. Sob uma chuva insistente, Robinson não estava bem.
- Jolie, eu não estou me sentindo bem. Preciso voltar para o quarto para dormir e me recuperar. Vim aqui só para me despedir de você.
- Que pena... Mas o que você tem? - Jolie falou.
- Estou com febre, acho que tenho descansado muito pouco...
- Tudo bem, melhor dormir então. Mas não precisa se despedir, ainda vamos nos encontrar - falou antes de beijá-lo.
Robinson voltou ao hotel imaginando se realmente voltaria a ver Jolie. Cansado e febril, dormiu profundamente.
- Ei, acorda... - Alguém cochichou, cutucando o pé de Robinson.
Com a pouca luz que entrava pela janela, Robinson reconheceu a silhueta de Jolie dentro de seu quarto ainda molhada pela chuva.
- Falei que ainda nos veríamos. A festa lá na praia acabou. Vim te dizer boa noite - disse Jolie com um tom delicado.
- Que surpresa! Não esperava que viesse até aqui... Aliás, como você chegou? - perguntou Robinson.
- Lembro exatamente o caminho que fizemos ontem. Eu ia bater na porta, mas ela estava aberta e eu entrei. Eu queria te dar mais um beijo. Foi muito bom te conhecer! - respondeu Jolie.
- Gostei muito de te conhecer também. Fiquei feliz por você vir se despedir.
- Não precisamos nos despedir. Esqueceu que sou aeromoça? Nos próximos meses vou para Sydney pelo menos uma vez, então a gente se vê. E, quando você já estiver no Brasil, talvez eu passe por lá também. É só combinarmos - falou sorridente.
Com a aparição no meio da madrugada, Jolie conquistou Robinson definitivamente e ele passou a gostar mais do que nunca de aeromoças. Hoje, em Sydney, Robinson segue esperando o dia em que poderá desarmar mais uma vez o penteado de Jolie.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Um dia especial
Era mais um dia ensolarado e frio no inverno de Sydney. Mais um dia em que eu trabalharia e veria meus amigos após o serviço. Há quem considere rotina um sinônimo de monotonia. Entretanto, os dias que eu vivia apenas aumentavam a vontade de aproveitar cada momento. Nunca uma rotina fora tão prazerosa e cheia de surpresas.
Saindo de casa após o almoço, eu percorreria o trajeto de sempre rumo à churrascaria. Ouvindo Jack Johnson no mp3 player, eu sorria e cantava admirando cada parte do caminho. Eu imaginava a falta que sentiria daquelas ruas assim que eu voltasse ao Brasil. Em alguns meses, cada local tão peculiar e tão presente nessa etapa da minha vida, simplesmente, ficaria para trás e se transformaria em memórias. Eu tentava adivinhar quais daqueles restaurantes, artistas de rua, vendedores e prédios que eu via todo dia fariam parte dessas lembranças.
Foi observando cada detalhe e cada personagem anônimo dessa minha rotina, que me deparei com um morador de rua da Oxford Street. Enquanto eu vivia um sonho verdadeiro e sentia a felicidade fazer meu sorriso crescer naturalmente, aquele homem, ainda jovem, estava, provavelmente, vivendo uma realidade oposta. Sentado na calçada, esticava o braço empunhando um chapéu para receber doações. Muitas vezes, passo por moradores de rua sem ser tocado por um sentimento de solidariedade. Infelizmente, essas situações acabam se tornando corriqueiras e não recebem de nós o valor que deveriam. Porém, naquele momento em que eu observava cada detalhe daquela rua, meu olhar se fixou no rapaz. Ele destoava da realidade perfeita que eu enxergava.
- Se você quiser tenho um pote com comida - ofereci quando lembrei da marmita que sobrara do dia anterior.
O sorrisso que havia saído do meu rosto ao ver a realidade do homem foi transferido. Quem passava a sorrir era ele.
- Muito obrigado, eu quero sim. Muito obrigado mesmo. Que Deus lhe abençoe e que seu dia seja muito especial - agradeceu largando o chapéu e pegando a marmita.
Depois da resposta, os dois estavam sorrindo. Assim, o desejo dele se realizou: o meu dia se tornava especial. Provavelmente aquela era uma das pessoas que ficariam guardadas na minha memória daquele local. Segui meu caminho. Ele ficou lá, segurando o pote como uma criança ao receber o tão esperado presente de aniversário. Ele nem imaginava que o aniversariante daquele dia era eu e que aquele sorriso seria o maior presente pelos meus 21 anos.
Saindo de casa após o almoço, eu percorreria o trajeto de sempre rumo à churrascaria. Ouvindo Jack Johnson no mp3 player, eu sorria e cantava admirando cada parte do caminho. Eu imaginava a falta que sentiria daquelas ruas assim que eu voltasse ao Brasil. Em alguns meses, cada local tão peculiar e tão presente nessa etapa da minha vida, simplesmente, ficaria para trás e se transformaria em memórias. Eu tentava adivinhar quais daqueles restaurantes, artistas de rua, vendedores e prédios que eu via todo dia fariam parte dessas lembranças.
Foi observando cada detalhe e cada personagem anônimo dessa minha rotina, que me deparei com um morador de rua da Oxford Street. Enquanto eu vivia um sonho verdadeiro e sentia a felicidade fazer meu sorriso crescer naturalmente, aquele homem, ainda jovem, estava, provavelmente, vivendo uma realidade oposta. Sentado na calçada, esticava o braço empunhando um chapéu para receber doações. Muitas vezes, passo por moradores de rua sem ser tocado por um sentimento de solidariedade. Infelizmente, essas situações acabam se tornando corriqueiras e não recebem de nós o valor que deveriam. Porém, naquele momento em que eu observava cada detalhe daquela rua, meu olhar se fixou no rapaz. Ele destoava da realidade perfeita que eu enxergava.
- Se você quiser tenho um pote com comida - ofereci quando lembrei da marmita que sobrara do dia anterior.
O sorrisso que havia saído do meu rosto ao ver a realidade do homem foi transferido. Quem passava a sorrir era ele.
- Muito obrigado, eu quero sim. Muito obrigado mesmo. Que Deus lhe abençoe e que seu dia seja muito especial - agradeceu largando o chapéu e pegando a marmita.
Depois da resposta, os dois estavam sorrindo. Assim, o desejo dele se realizou: o meu dia se tornava especial. Provavelmente aquela era uma das pessoas que ficariam guardadas na minha memória daquele local. Segui meu caminho. Ele ficou lá, segurando o pote como uma criança ao receber o tão esperado presente de aniversário. Ele nem imaginava que o aniversariante daquele dia era eu e que aquele sorriso seria o maior presente pelos meus 21 anos.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
A melhor e mais simples receita para o inverno
Acredito ter conhecido o prazer gastronômico supremo. Não é algo complexo, caro ou inacessível. Tampouco é um daqueles pratos chiques, requintados e servidos em quantidades mínimas. Bastou a criatividade de alguma mente brilhante hoje desconhecida. Sempre considerei o chocolate como a maior fonte de prazer quando se trata de paladar. Depois de ter passado por tamanha experiência, tirei qualquer possibilidade de esse título ser perdido para qualquer tipo de lasanha ou sorvete. Essa receita já tem alguma fama, mas, assim como era o meu caso até uma semana atrás, tenho certeza que ainda é desconhecida por muita gente. Por isso, faço questão de passá-la para quem ainda não experimentou.
Era uma quarta-feira, quase onze horas da noite. O frio do inverno de Sydney acompanhava a mim, João e Michel após o trabalho. Íamos à casa de alguns amigos, local de encontro quase diário da turma. Passaríamos mais uma madrugada conversando e rindo enquanto o frio tomaria conta das ruas da cidade. Como também já era costume, compramos o inigualável chocolate quente feito com chocolate derretido do Coco Cubano, café vizinho à nossa churrascaria. Foi aí que Michel tocou no assunto que faria nossa noite mudar.
- Vocês já experimentaram Tim Tam com café ou leite quente? - questionou, já empunhando seu copo de chocolate.
Tim Tam é um biscoito muito popular na Austrália. Cremoso E crocante. Recheado E coberto por chocolate. Para mim, não é apenas um biscoito; sempre considerei o Tim Tam como o meio termo entre biscoito e bombom. Michel garantiu que não seria apenas comer o Tim Tam enquanto bebíamos o chocolate quente, seria a combinação perfeita entre o sólido e o líquido. Fomos ao mercado comprar quatro pacotes do biscoito antes de ir à estação.
Concordamos em sentar para fazer a tal experiência. Michel ensinou os passos que deveríamos seguir. Teríamos que quebrar duas pontas opostas do retângulo formado pelo Tim Tam. Uma das pontas teria de ser mergulhada no chocolate quente enquanto a outra ficaria na boca. O Tim Tam seria uma espécie de canudinho. Deveríamos sugar o chocolate quente pelo biscoito. Quando sentíssemos que o líquido estava chegando até a boca, deveríamos colocar o Tim Tam inteiro na boca.
Seguimos as instruções. Antes mesmo de o Tim Tam entrar inteiramente na boca, o processo de derretimento, provocado pela elevada temperatura do líquido, já havia começado. Porém, foi quando o biscoito entrou na boca que chegamos ao ápice do prazer. Os sabores do chocolate quente e de cada uma das camadas do biscoito se uniram em uma única calda quente. Foram 7 segundos de prazer extremo degustando cada etapa do derretimento do Tim Tam, que, multiplicados pelo número de biscoitos comidos, resultaram em bons minutos de degustação para cada um. Nada na minha vida jamais havia se comparado a aquele sabor. Engolir uma dose daquela calda obrigava-nos a comer mais um, outro e outro... Chegamos ao nosso destino ansiosos para contar a novidade para os amigos. Daquela vez não havia sobrado chocolate quente, mas não faltarão oportunidades para compartilhar tamanho sabor com o restante do grupo até o final da estação.
Era uma quarta-feira, quase onze horas da noite. O frio do inverno de Sydney acompanhava a mim, João e Michel após o trabalho. Íamos à casa de alguns amigos, local de encontro quase diário da turma. Passaríamos mais uma madrugada conversando e rindo enquanto o frio tomaria conta das ruas da cidade. Como também já era costume, compramos o inigualável chocolate quente feito com chocolate derretido do Coco Cubano, café vizinho à nossa churrascaria. Foi aí que Michel tocou no assunto que faria nossa noite mudar.
- Vocês já experimentaram Tim Tam com café ou leite quente? - questionou, já empunhando seu copo de chocolate.
Tim Tam é um biscoito muito popular na Austrália. Cremoso E crocante. Recheado E coberto por chocolate. Para mim, não é apenas um biscoito; sempre considerei o Tim Tam como o meio termo entre biscoito e bombom. Michel garantiu que não seria apenas comer o Tim Tam enquanto bebíamos o chocolate quente, seria a combinação perfeita entre o sólido e o líquido. Fomos ao mercado comprar quatro pacotes do biscoito antes de ir à estação.
Concordamos em sentar para fazer a tal experiência. Michel ensinou os passos que deveríamos seguir. Teríamos que quebrar duas pontas opostas do retângulo formado pelo Tim Tam. Uma das pontas teria de ser mergulhada no chocolate quente enquanto a outra ficaria na boca. O Tim Tam seria uma espécie de canudinho. Deveríamos sugar o chocolate quente pelo biscoito. Quando sentíssemos que o líquido estava chegando até a boca, deveríamos colocar o Tim Tam inteiro na boca.
Seguimos as instruções. Antes mesmo de o Tim Tam entrar inteiramente na boca, o processo de derretimento, provocado pela elevada temperatura do líquido, já havia começado. Porém, foi quando o biscoito entrou na boca que chegamos ao ápice do prazer. Os sabores do chocolate quente e de cada uma das camadas do biscoito se uniram em uma única calda quente. Foram 7 segundos de prazer extremo degustando cada etapa do derretimento do Tim Tam, que, multiplicados pelo número de biscoitos comidos, resultaram em bons minutos de degustação para cada um. Nada na minha vida jamais havia se comparado a aquele sabor. Engolir uma dose daquela calda obrigava-nos a comer mais um, outro e outro... Chegamos ao nosso destino ansiosos para contar a novidade para os amigos. Daquela vez não havia sobrado chocolate quente, mas não faltarão oportunidades para compartilhar tamanho sabor com o restante do grupo até o final da estação.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Segundo semestre, segundo começo
Depois das tão sonhadas férias e de muita história para contar, volto a Sydney. Com o procedimento de renovação do visto encaminhado e com o novo curso marcado para o meio de julho, posso reiniciar a minha "vida" tranquilamente. Terei duas aulas por semana em um curso de business. Com isso, cinco manhãs por semana estarão vagas. A intenção era encontrar um segundo emprego para ter uma grana extra em algumas dessas manhãs. No entanto, uma boa oportunidade na churrascaria talvez acabe com a ideia de preencher esse tempo livre com um segundo emprego. O churrasqueiro número um, grande amigo e professor da arte de assar, André, saiu do restaurante e passou o cargo para mim. Logo de cara, recebi uma grande responsabilidade e uma bela chance de me firmar em um único emprego, caso tudo ocorra normalmente.
De fato, o segundo semestre será novo, praticamente um recomeço. Os planos e objetivos mudam, alguns grandes amigos já não estão mais presentes, o início de um novo curso se aproxima e a busca por um novo lugar para morar se intensifica, já que eu e Nick estamos decididos a dividir um quarto novamente. Essa vida de novidades e de incertezas me instiga, me dá vontade de experimentar as possibilidades e de seguir mudando de rotina. Ao mesmo tempo, não posso negar o sentimento quase angustiante de querer saber o que vem pela frente, de conferir se tudo dará certo e se o futuro atingirá as expectativas. O ideal é por os pés no chão e não pensar tanto no futuro para ser capaz de aproveitar o presente com mais intensidade. Por enquanto tem funcionado.
Ainda tenho que ver como ocuparei minhas manhãs. Não posso simplesmente descansar. Afinal, tenho apenas mais seis meses para aproveitar esse país da melhor forma possível e ter muita história para contar para vocês. Aliás, as férias devem render posts interessantes...
De fato, o segundo semestre será novo, praticamente um recomeço. Os planos e objetivos mudam, alguns grandes amigos já não estão mais presentes, o início de um novo curso se aproxima e a busca por um novo lugar para morar se intensifica, já que eu e Nick estamos decididos a dividir um quarto novamente. Essa vida de novidades e de incertezas me instiga, me dá vontade de experimentar as possibilidades e de seguir mudando de rotina. Ao mesmo tempo, não posso negar o sentimento quase angustiante de querer saber o que vem pela frente, de conferir se tudo dará certo e se o futuro atingirá as expectativas. O ideal é por os pés no chão e não pensar tanto no futuro para ser capaz de aproveitar o presente com mais intensidade. Por enquanto tem funcionado.
Ainda tenho que ver como ocuparei minhas manhãs. Não posso simplesmente descansar. Afinal, tenho apenas mais seis meses para aproveitar esse país da melhor forma possível e ter muita história para contar para vocês. Aliás, as férias devem render posts interessantes...
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