quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Viagem pela costa - parte 5 - A natureza de Fraser Island

Uma balsa faria o transporte entre Hervey Bay e Fraser Island, aproximadamente trinta minutos sobre o mar com outros desses viajantes que percorrem a costa leste australiana. Uma mochila para os três seria suficiente para passar dois dias explorando a ilha.

O plano era conhecer florestas densas, rios, grandes dunas de areia, lagos, animais selvagens e mais de cem quilômetros de praia em dois dias intensos. Um ônibus feito especialmente para circular em condições desafiadoras levaría-nos aos extremos de Fraser Island.

Após percorrer trilhas em meio à floresta, desembarcamos em uma clareira. A partir de lá, a trilha seria feita a pé. Vinte minutos de caminhada entre moscas insistentes e teias de aranha. De repente, saímos da floresta e nos vimos cercados por muita, muita areia. Imensas dunas tomavam conta do visual desértico. Ansiosos para chegar ao destino, fomos antes do resto do grupo seguindo o caminho que os guias haviam indicado. Nada mais parecia existir por lá, senão areia. Era o que pensávamos até chegar ao topo de uma das dunas mais altas. Aos poucos, uma vasta vegetação aparecia diante de nós. E, como que miragem, o verde de um grande lago surgia convidando para o mergulho. Sob o sol escaldante do meio-dia, descemos correndo e largando as coisas no caminho. Ainda pensaríamos naquele banho como a melhor lembrança da ilha. Foi um momento de puro contato com a natureza.

A ilha é preservada desde os primeiros contatos com a civilização, no início do século passado. Antes, tinha a presença dos aborígenes, que dividiam espaço com os dingos, caninos selvagens típicos da Austrália, e outros animais também presentes no local. De algumas décadas pra cá, a exploração da ilha passou a ser voltada para o turismo, mas sempre com cuidado para alterar o mínimo possível da natureza original. Durante o passeio, os bem-humorados guias explicam de que maneira a ilha foi estruturada para receber os visitantes. As áreas para construção de hotéis é limitada, já não se pode mais construir em Fraser. Além disso, multas são                                                                                          cobradas de quem alterar o ambiente.
 
Conseguiram montar uma programação completa para os turistas. Os ônibus enfrentam areia, água e floresta, levam a lugares extremos e a paraísos inimagináveis. Pode-se subir em morros, mergulhar em lagos, conhecer animais raros de perto e percorrer rios de água potável desde sua nascente. Também é possível sobrevoar a ilha e conhecer a história de um navio encalhado há aproximadamente cem anos na praia. Não é sempre que se consegue unir comodidade, diversão, aventura, tranquilidade e informação. O trabalho que fazem em Fraser Island é tão admirável quanto a beleza da ilha.

Airlie Beach será nossa próxima parada, o lugar de onde não queríamos sair.  

Viagem pela costa - parte 4 - A parada no backpacker de Noosa

Noosa seria uma parada rápida em nossa viagem. Não seria um dos destinos principais; o tempo era insuficiente para conhecer tudo o que há por lá. A expectativa era de ter descanso durante uma noite após tanto agito na primeira metade da viagem.

A cidade lembra Byron Bay pelo seu tamanho, pela praia e pela ausência de prédios ou grandes construções. É, porém, lugar mais sofisticado, enquanto Byron se mostra mais rústico. Também parada dos mochileiros, predominantemente europeus, Noosa é muito frequentada por jovens e, bem como nosso primeiro destino, tem algumas baladas. Não esperávamos sair à noite, mas foi inevitável quando conhecemos um grupo de gurias, três alemãs e duas holandesas.

Essa é a grande vantagem de estar em backpackers, a possibilidade de conhecer gente nova. A galera que escolhe esse tipo de hospedagem tem um perfil em comum, se interessa por conhecer gente nova, compartilhar experiências e não tem preconceito. Não é à toa que os backpackers normalmente tem banheiros e cozinhas comunitários, além de áreas de jogos. As refeições promocionais e atividades ajudam a promover a integração. Chama a atenção a cultura de ignorar a diferença dos sexos. Homens e mulheres que jamais se viram anteriormente circulam no interior dos mesmos dormitórios e banheiros.

Não há formalidade alguma num ambiente desses. As mulheres não se importam e andam do banheiro ao quarto envoltas apenas pelas toalhas. Os homens fazem barba na mesma pia em que elas escovam os dentes. Havíamos passado pelo quarto das cinco e, naturalmente, entramos e nos sentimos à vontade. Estavam sentadas no chão jogando cartas e tomando copos de vinho a cada rodada perdida. Acompanhávamos a partida em meio às apresentações. Em seguida, já tocávamos violão e cantávamos todos juntos. De lá, fomos ao bar do hostel que serviria os jantares promocionais. Havia música ao vivo de uma dupla entrosada e com ótimo repertório, que ia de country a Coldplay. Logo mais, um segurança conferindo identidades de quem entrasse. Havia fila para entrar, a música já era eletrônica e muita gente dançava na pista. Quando percebemos, estávamos dentro de uma balada. Acabaria cedo e todos iriam juntos a uma boate com vans disponibilizadas pelo hostel.

Esquecemos da possibilidade de descansar. A noite acabou tarde. Voltamos ao quarto molhados após um banho de piscina pós festa. Não fosse o clima do hostel e às possibilidades de se aproximar dos outros mochileiros, seria uma noite sem grades lembranças. O ambiente em que passamos aquela noite, as alemãs, as holandesas e os momentos que vivemos em Noosa marcaram. Não havia sido apenas uma parada naquela pequena cidade. Teríamos o resto da noite de sono antes de partir para a natureza incrível de Fraser Island.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Contrastes após o retorno

Há mais de dois meses de volta ao Brasil, sinto uma saudade imensa da vida australiana. A satisfação de ter vivido tanta coisa positiva contrasta com uma pontinha de tristeza por saber que tudo aquilo não volta. Por mais que Sydney, Bondi, Oxford Steet, Artarmon, George Street, Hyde Park, as festas de cada noite e muito do que fez parte desse ano de 2011 continue lá, o momento não volta. Boa parte dos que conviveram comigo já não estão mais lá. Mesmo com a certeza de revê-los em um futuro próximo, sempre sobrará esse lamento em cada um de nós.

Sigo recebendo e-mails de quem lê o blog e que procura dicas pois logo devem embarcar para essa experiência. A cada conselho e sugestão, muita coisa volta à lembrança e provoca essa saudade. Falar com os amigos que há pouco faziam parte do nosso dia-a-dia e agora estão distantes seguindo seus rumos causa o mesmo sentimento.

Tem também o lado social. A cabeça não é a mesma de antes. Não estamos mais acostumados a estar dentro da realidade daqui. O carnaval, agora, provou muito isso. O jeito do brasileiro é diferente. Com suas peculiaridades positivas ou não, não é possível voltar a esse mesmo padrão de comportameto e de pensamento. Na praia, tomada por jovens, as pessoas pareciam todas iguais. Muito disso acaba refletido na estética. Qualquer variação que fosse estranha ao modelo de comportamento é julgada como inferior. Alguém vestindo calça jeans à tarde na praia, ou com um biquini muito grande, ou de pele muito branca, bem como pessoas altas ou gordas demais eram motivos de olhares e comentários maldosos. É muito presente essa obrigação de ser igual para ser aceito, o que é nada menos do que preconceito com o diferente.

Era admirável a liberdade que se tinha para ser do jeito que quiser ser. Não é somente por questões financeiras que as gurias chegavam a passar um ano inteiro sem ir a um salão de beleza. Aqui, uma ida às estéticas a cada doze meses parece absurdamente pouco para elas. Rola uma necessidade de corrigir o que o padrão diz ser errado. Muita plástica, maquiagem, academia... Muito tempo perdido com isso pensando apenas na aparência para estar de acordo com o modelo. É muita preocupação com o que as outras pessoas vão pensar. Quando se percebe que não precisa dessas coisas, cada um é o que é, sem intervenções desnecessárias. Bonito é agir naturalmente a ponto de se aceitar. Ouvi, há pouco tempo, uma música dizendo que a verdadeira beleza é aquela de quando se acorda. E realmente é.

Quando era madrugada, ainda acordados, íamos à loja de conveniência procurar algo diferente pra comer. Saíamos do jeito que dormiríamos algumas horas mais tarde. Com a roupa que usávamos em casa, atravessávamos uma série de ruas, andávamos pela Oxford Street, rua das mais badaladas todas as noites. Mas todos fazem assim por lá. Não é necessário adotar um estilo que não seja o seu. Enquanto, aqui, chega ao ponto de ouvir comentários por estar vestindo uma calça de moletom. Que coisa boa seria sair por aí de calça de moletom se essa for mais confortável que as outras!

Certa vez, em uma dessas madrugadas voltei pra casa e reparei no meu reflexo no vidro. Vestia uma camiseta verde limão, um calção bem curto da época da escola e um calçado verde limão que calcei improvisadamente na hora de sair. Ninguém havia reparado. Ninguém havia achado estranho, nem eu. A roupa mais confortável não seria estranha aonde quer que fosse. A partir dessa noite tentei por algumas vezes medir o limite dessa aceitação de variedades. A cada noite, eu e o pessoal, aumentávamos o grau de extravagância. Desistimos na vez em que, durante uma agitada noite de sábado, andei em meio à intensa movimentação das baladas vestindo a mesma roupa verde limão com o mesmo calçado e mesmo calção, mas também usando um chapéu de palha e carregando um Ursinho Pooh debaixo do braço. Havia muita gente pelo caminho, mas ninguém deu atenção para a maneira como eu andava. Satisfeito, voltei pra casa satisfeito e convencido de que ali a personalidade e o caráter eram mais importantes do que a primeira impressão.

No carnaval, então, naquela praia cheia do pessoal endinheirado em busca de status, seja lá o que sejam os tais status, ouço um velho conhecido falar rindo em tom debochado apontando para alguém distante: o que aquele cara tá fazendo de calça jeans aqui? Bateu um desânimo pra continuar a conversa, que acabou em seguida.

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Estou ansioso pra poder postar os demais textos da viagem. Faltam apenas as fotos de um amigo pra os posts ficarem completos. Então consigo encerrar o blog de uma maneira legal. Mas sigo disponível pra conversar com quem tiver dúvidas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Viagem pela costa - parte 3 - Os schoolies de Surfers Paradise

Em Byron Bay, já havíamos ouvido falar a respeito deles. Também havíamos percebido indícios do que estaria por vir. Apenas chegando a Surfers Paradise, porém, entenderíamos o que eram os schoolies e o tamanho da bagunça que poderiam causar.

Era a época em que os jovens encerram o período escolar e vão às praias se divertir. Surfers Paradise seria o principal destino desse pessoal de 17 e 18 anos. Após o desembarque na rodoviária, andamos poucos metros até nosso backpacker, provavelmente o maior e mais agitado da cidade. A recepção foi calorosa. No auge do primeiro dia de festas, as sacadas eram ocupadas pelos schoolies que gritavam, dançavam e bebiam enlouquecidamente. Há quem não goste de tanto agito, mas nos divertíamos com toda aquela animação.

Vivemos três dias de muita diversão, dias quase sem descanso. Nossa viagem oferecia entradas em um parque de diversão e em um aquático, momentos em que não relaxávamos, mas em que, ao menos, ficávamos algumas horas afastados dos gritos dos jovens que dominavam o hostel, a praia e as ruas. À noite, então, voltávamos ao agito do centro de Surfers Paradise.

Mais do que esses três dias seria demais. A cidade é ótima, bem estruturada e cheia de atrativos, mas essa convivência com os schoolies foi muito cansativa! A diferença de três ou quatro anos de idade é muito grande nessa fase da vida. Relembrávamos a época em que éramos mais novos e tínhamos algumas daquelas atitudes. Surfers Paradise lembrou a adolescência, as bobagens ditas a todo momento e as brincadeiras bestas de escola. Mostrou que o tempo passou e que os gostos mudaram. Provou, ainda, que são contagiantes a vivacidade, a alegria e o alto astral desse pessoal um pouco mais jovem. Também fez perceber que a diversão em parques como aqueles a que fomos já não é a mesma. Por mais que possamos ainda viver bons momentos assim, algumas coisas mudaram. Valeu muito viver esses três dias por lá, experiência que divertiu e fez perceber as mudanças que o tempo traz.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Viagem pela costa - parte 2 - Os sobreviventes de Woodstock


Praia de Byron Bay
Para eles, a ideologia continua presente. Internet, celular e qualquer outra forma de tecnologia parecem estar ausentes no dia-a-dia de parte do povo da região de Byron Bay. Dois dias por aqui foram suficientes para ver a cidade, conhecer a praia, curtir as noites e conhecer algumas pessoas interessantes. Foi em Nimbin, porém, a experiência mais marcante.

Passamos algumas horas por lá durante nosso segundo dia na região. Um ônibus turístico nada convencional levou-nos à pequena cidade que serve de refúgio para aqueles que decidiram, há mais de trinta anos, jamais voltar aos padrões da sociedade moderna.

- Peguem leve caso estejam pensando em provar os cookies - alertava o guia, visivelmente sob efeito de alguma substância.


A verdade é que a apologia à maconha é forte por aqui. Nimbin é como a cidade símbolo do movimento Hippie e da ideologia que prega uma visão positiva em relação à droga aqui na Austrália. A menção à erva não é escondida na cidade. Lojas com produtos relacionados à planta tomam conta da pequena rua central de Nimbin. Um museu rústico e alternativo é uma das principais atrações. Pagar pelo ingresso é opcional.

A lei australiana não oferece liberdade em relação à maconha, mas a cultura do país é notavelmente mais aberta ao assunto quando comparada à brasileira, por exemplo. Por mais que as autoridades atuem no combate ao tráfico nas ruas, boa parte da população mostra não ter preconceito em relação à erva.

Interior do museu
Eu diria que 90% da população de Nimbin faz uso da cannabis. Aí não há nada de estatística confirmada, apenas a impressão após um dia circulando pelas poucas ruas da cidade. O que se vê, no entanto, vai além do uso ou não de drogas. Esse é apenas um dos ingredientes que formam o estilo de vida do povo local. Para quem não presta atenção, a impressão é de que muitos dos habitantes são moradores de rua, tamanho o desapego a bens materiais. Buscam a liberdade de viver sem ter o dinheiro como objetivo. Tem suas formas de sustento normalmente com serviços para os turistas que circulam pelas lojas e restaurantes ou do lado de fora dos estabelecimentos, oferecendo produtos ilegais sem muita discrição.

Vão levando a vida. Parecem felizes por não se deixar levar pela cultura da sociedade global. São os sobreviventes de Woodstock, que não deram o braço a torcer e que, definitivamente, adotaram seu padrão de vida até o fim. Mas há algo que causa incômodo para eles. Como fosse uma cidade normal, as autoridades estão presentes com sua missão de manter a ordem de acordo com as leis. Essa legislação, no entanto, impede que esse pessoal atinja seu maior objetivo, o de se aproximar ao máximo de uma liberdade extrema. Sentem-se mais próximos desse ideal por adotarem esse estilo de vida, mas esse desconforto tornou-se mágoa, que é expressada com certa rebeldia, por mais que o sentimento de "paz e amor" predomine. No próprio museu de Nimbim, há referências negativas a símbolos como a igreja, o governo americano e a icones de mercado como McDonald's e Coca-Cola.

Merecem admiração pela força de vontade que permite que sigam em busca de seu espaço por mais que saibam que isso não passa, na verdade, de utopia. É como se eu quisesse viver de viagens, aproveitando uma vida inteira de lazer e prazer. Mas não há chance, tenho de me conformar de que dinheiro é necessário e, consequentemente, é preciso trabalhar, ter compromissos e preocupações. Talvez ter a vida fácil demais não tenha tanta graça. Melhor fazer de conta que se vive essa utopia durante as férias. Estamos a caminho de Surfers Paradise, Gold Coast. Em menos de uma hora chegaremos ao destino. O motorista acaba de anunciar:

- Passamos agora pela divisa entre New South Wales e Queensland. Vamos pela beira do mar até Surfers Paradise, naqueles prédios que vocês podem ver à direita. São vinte e três quilômetros até lá, mas levaremos quarenta minutos para chegar.

O trânsito é de cidade grande, mas a vista distrai, com o mar azul refletindo o sol do meio-dia. Logo estaremos em mais uma cidade até então desconhecida com mais histórias para contar.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Viagem pela costa - parte 1 - As partidas

Duas semanas e meia antes de voltar ao Brasil, começa uma viagem. João, Nícolas e eu estaremos ainda mais juntos do que durante os últimos seis meses, quando dividimos quarto, trabalhamos lado a lado e fomos companhia garantida para sair. Duas semanas de mochila nas costas e ônibus Austrália acima pela costa leste. Na outra meia semana me despedirei de uma época que não voltará mais, mas que seguirá conosco em lembranças e em nosso modo de viver.

No dia seguinte, chegaremos a Byron Bay, primeiro destino, após 12 horas de estrada. Quase uma hora depois da partida, os olhos acompanham pela janela o anoitecer chuvoso, passando por pontos marcantes da cidade. Como que uma despedida antecipada da minha mais recente casa. Os olhos seguem observando o afastar dos prédios enquanto a mente se distancia algumas semanas à frente vendo o último tchau dos amigos.

Eles deixarão saudades. Não fossem os amigos, a vida na Austrália não seria do jeito que foi. Quando nos afastamos de casa, nos distanciamos das velhas companhias. Fazem falta. E essa lacuna tem de ser preenchida. É uma necessidade natural essa de ter alguém ao lado. Alguém que esteja junto na hora da diversão e de pedir ajuda. Não há tecnologia que supere a distância geográfica. Trabalho, escola e casa facilitam o encontro com pessoas na mesma situação, predominantemente estudantes estrangeiros que deixaram suas vidas recentemente e que também enfrentam a mesma falta de amigos e família. A vontade de suprir essa necessidade intensifica incrivelmente qualquer aproximação e faz essas pessoas conhecerem-se a fundo e tornarem-se amigos para o resto da vida de maneira muito rápida. Se a distância inevitável que acontece com o retorno impede que se mantenha essa convivência, a lembrança do que se viveu em um dos momentos mais fortes da vida eterniza cada situação e o jeito de cada um desses amigos.

Os amigos do lado de cá se envolvem nas histórias uns dos outros e acompanham seu desenrolar mais do que qualquer uma das velhas companhias quando, de repente, voltam à vida de origem. Do dia para a noite. É triste voltar sem poder acompanhar um amigo até o final de sua jornada. Formam-se grupos fortes. Parceiros que se conhecem detalhadamente. Sabem os sonhos uns dos outros, bem como os caminhos já percorridos e os planos de vida e as ideias daqueles que nada planejam.

Dois franceses que conhecemos são exemplos daquela intensidade de aproximação. Luc era amigo de João de algum tempo atrás e agora voltou à Austrália. Max conheceu Luc assim que chegou a Sydney. Quando Luc passou a morar improvisadamente conosco, Max veio junto. Dois a mais. Formamos um time. A vida virou de cabeça para baixo. Não paramos um segundo sequer, ainda mais depois que deixei definitivamente o restaurante. O ânimo dos franceses, a simpatia, a alegria e a agradável companhia deles deu ainda mais vida a este final de ano. Na hora perfeita, conhecemos duas pessoas que, em duas semanas, viraram amigos, daqueles cuja presença marca nas melhores lembranças. Daqueles cuja presença foi fundamental para escrever minha história aqui. Dos que deixarão saudades e que provocarão um aperto por saber que não os acompanharei até o final de suas jornadas. Mas não há nada de que reclamar, somente agradecer. Afinal, temos ainda uma bela viagem pela frente. Amanhã estaremos em Byron Bay.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Lembranças das férias - O narguilé indonésio

Movimentação em Kuta à noite
Esse amigo nosso, que conhecemos lá mesmo na Indonésia, não era alguém totalmente normal. Robinson gostava de beber, e muito. Depois do dia completo de passeios, jantamos cedo na rua mais baladada de Kuta, a praia mais movimentada da cidade. Comemos pouco. Devia ser hábito local não se alimentar em grandes quantidades, pois nunca saíamos totalmente satisfeitos. Eu e Murillo voltamos ao hotel para arrumarmos os preparativos para a noite. Ele, juntamente com Dudi e Leonel, foram a um dos bares próximos do restaurante. Virou uma ou duas cervejas e chamou o garçom para pedir o narguilé Indonésio.

Próximo ao Sky Garden, uma das melhores baladas de Bali
Não pode-se esperar atitudes convencionais de pessoas que não são normais. Ele não costumava pensar muito nas consequências. Eu meio que admirava isso nele. Faltava medo e sobrava diversão. Afinal, pensar muito nem sempre é tão bom. Uma vida um tanto inconsequente que eu não teria, do tipo que experimenta um narguile e depois os famosos cogumelos mágicos... Não gostaria de ter um filho assim, mas ele era feliz. Isto é inquestionável.

Mas ele ainda não havia tomado seu drink de cogumelos. Não naquela noite, que ainda estava começando. A combinação de comida, cerveja e a fumaça dentro de seu corpo já era suficiente para causar bons estragos.

Em meio a estrangeiros, Robinson, que além de tudo era mulherengo, chamou a atenção de algumas loiras que estavam na mesa ao lado. Não sabia se eram inglesas, dinamarquesas, suecas ou suíças. O que importava era o ar europeu e as madeixas douradas. Ele ainda estava sóbrio, por incrível que pareça, até porque era acostumado a fortes doses de seja lá o que fosse. Os olhares das loiras se voltavam para ele quando pegou na mangueira a fim de exibir seus dons e habilidades. Se preparava para soltar a fumaça em formato aureolar com destreza que ninguém mais tem. Não havia, porém, um segundo sequer que Robinson enviara o conteúdo do narguilé corpo a dentro, quando tudo saiu automaticamente. Não só a fumaça, mas a janta, a cerveja, o almoço e o café da manhã. Talvez tudo o que houvera ingerido nos últimos três dias, de acordo com o relato dos amigos a respeito da quantidade de vômito que tomou conta da mesa.

Robinson tinha uma auto confiança elevadíssima. Viu aquilo tudo tomar conta da mesa e todas atenções do bar se voltarem para suas últimas refeições em estágio de pré-digestão. Não se abalou. Passou a mão na boca limpando o excesso. Levantou-se e voltou ao nosso hotel para preparar-se para a noite. Entornaria, sabe-se lá como, algumas dúzias de drinks, buscaria seus cogumelos mágicos e ainda se apaixonaria por uma massagista local, mais uma paixão temporária que colecionaria na Ásia.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A melhor praia de Sydney

Escolhemos uma praia. Queríamos alguma que não conhecêssemos. Pesquisamos um pouco e Cronulla parecia agradar. Era uma das mais distantes do centro. Eu e Juliana, grande companhia que deixará saudades, pegamos o trem que nos deixaria no balneário após 40 minutos.

Ao longo do percurso rumo ao sul de Sydney, observávamos os diversos bairros pelos quais nunca havíamos passado. Faltava menos de um mês para deixar a Austrália. Eu lamentava o fato de não poder conhecer cada rua e cada canto daqueles locais estranhos. Escolas, lagos, parques e igrejas ficavam para trás. Aquela visão rápida através da janela do trem seria, provavelmente, a única que teria daquilo tudo.

Sydney é gigante. Eu havia de me conformar. Afinal, não há tempo na vida para conhecer cada rua de cada cidade em todos os países do mundo. Isso é triste, mas ao menos teria o prazer de conhecer Cronulla Beach.

Calçadão de Cronulla
Como fosse uma cidade a parte, Cronulla tinha vida própria. Um calçadão daqueles de pequena cidade litorânea convidou para uma caminhada. Ainda bem que havíamos deixado o almoço para quando desembarcássemos na estação. Olhamos alguns restaurantes até escolhermos o mais interessane. A escolha foi o tradicional Fish and Chips, prato com nada mais do que fritas e peixe.

Acabado o almoço, rumamos à praia. A imagem das crianças ainda com uniforme da escola levando suas pranchas de surf debaixo do braço reforçava a primeira impressão de Cronulla como fosse uma cidadezinha do litoral. Não parecia fazer parte de uma cidade grande e com ritmo acelerado. 

A faixa de areia era extensa. Andamos ao sul para conferir o que havia. Contornamos a orla junto às rochas e resolvemos tentar o norte da praia. Alguns surfistas dividiam as poucas ondas que o mar proporcionava naquele dia quente.

Lado sul de Cronulla Beach
Aprendi a fazer nada na praia. Antes eu não entendia como as pessoas suportavam ficar sob um sol escaldante fazendo absolutamente nada. Hoje, porém, posso esticar a toalha na areia e ficar lá, sozinho, acompanhado, quieto, conversando, lendo seja ouvindo música. Um momento de apreciação. Seja à natureza, à vida, à falta de compromissos... É bom demais não ter compromisso algum.

Parte Norte
A presença de poucas pessoas na praia fazia o cenário mais interessante. Deviam ser moradores locais. Habitantes da "cidade de Cronulla". Crianças recém saídas da escola chegando à praia com suas pranchas, casais de mais idade caminhando pela praça como se fosse um passeio habitual e o salva-vidas sem muitos banhistas para cuidar que limpava a praia calmamente.

Uma nuvem negra começava a se aproximar quando resolvi mergulhar. A água gelada era pouco convidativa, mas sempre é possível curtir um mergulho. Um desses casais de meia-idade estava na beira do mar quando eu me aproximava. O homem, de cabelos longos e grisalhos, olhos azuis e bermuda de surfista me olhou com ar amigável e um leve sorriso no rosto. Gosto de trocar ideia quando alguém se mostra agradável e receptível.

- A água parece estar gelada, mas acho que vale um mergulho... - comentei.
- Concordo. Daqui a pouco vou nadar um pouco também - afirmou com simpatia.

Trocamos mais poucas palavras. Suficiente para eu confirmar aquilo que imaginei quando o avistei. Um morador local que se vê satisfeito com uma vida simples no lugar que escolheu para morar. Aquele é um cara tranquilo. Feliz por ter o que tem. Ele sim sabe apreciar o que está ao seu redor.

 O vento que já batia depois do mergulho não incomodou e nem ameaçou tirar valor do banho. É inexplicavelmente bom fugir de ambientes urbanos que lembram estresse, perturbações, pessoas mal-humoradas e apressadas. Juntar-se à natureza é a melhor forma de refugiar-se. Assim nos sentimos distantes de tudo que pode trazer preocupação. Assim vivemos momentos em que nos esquecemos que existem compromissos. Dessa maneira, aproveitamos a vida da maneira mais gostosa. Por isso aquele cara parece se sentir tão bem e tão satisfeito ali. Ele deve viver refugiado de preocupações e compromissos.

Antes de voltarmos à estação e rumarmos novamente ao agito e ao tumulto da cidade grande, fomos pegos pela chuva. Um temporal que me molhou mais do que o próprio mergulho no mar. Não havia chuva, vento ou mar gelado que incomodasse. Cronulla está longe de ser a praia mais bonita ou mais bem estruturada de Sydney. No entanto, não me preocupava com nada. Sentia-me como se fosse aquele cara de longos cabelos grisalhos. Talvez por me proporcionar essa sensação, Cronulla é a melhor praia que conheci em Sydney.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mais uma segunda-feira...

Há quem reclame (grande injustiça) mas toda segunda-feira é um dia especial. Para mim, é um dia sem trabalho, o que atualmente seria o único motivo de possíveis pequenos problemas. Mesmo que tivesse de trabalhar, não há regra que faça esse dia ser péssimo ou motivo para tristeza de tanta gente que costuma repudiar sua chegada. Qualquer dia pode ser ótimo, mesmo com alguns compromissos indesejados.

Duas semanas atrás, tivemos uma segunda-feira ainda mais especial.


João, Nick, eu e duas amigas suíças, Nicole e Jasmin, combinamos de sair mais cedo de casa para um programa diferente. Alguns deles teriam de trabalhar ou estudar na manhã seguinte, mas nada impedia que eles aproveitassem as primeiras horas do dia de uma maneira espetacular.


Saímos às 4h de casa. Encontramos as gurias em Bondi Junction e rumamos à praia que dá nome à região. Percorreríamos o caminho que liga a praia de Bondi a Tamarama e Bronte (ambiente cuja beleza relatei no blog ainda no dia 28 de janeiro). Nem chegaríamos à segunda praia; o local perfeito para acompanharmos o nascer do sol da segunda-feira ficava na ponta do morro à beira do oceano com a vista de Bondi à esquerda.


O caminho entre as rochas ainda estava escuro e deserto quando chegamos. As companhias sempre agradabilíssimas faziam o momento ainda mais especial em uma calma que predominava diante de qualquer coisa. A brisa do mar refrescava antes que o sol aparecesse fortemente para dar-nos um dia de muito calor. As nuvens não haviam aparecido, sinal de que teríamos um céu limpo para a chegada do sol.


Largamos as mochilas. As gurias tiravam suas máquinas fotográficas das bolsas para registrar o momento quando o preto já dava lugar ao azul e a um leve laranja na linha do horizonte. 

 


Colocamos uma caixinha de som tocando algumas das músicas mais ouvidas por nós nos últimos tempos. Músicas que acompanhariam o som das ondas nos paredões de rocha logo abaixo. A beleza de tudo o que nos envolvia havia afastado o sono de uma noite não dormida. Passadas cinco horas, ele surgia. Em poucos segundos toda a esfera solar brilhava no horizonte. Em mais de uma hora ele iluminava uma nova manhã ainda fresca. Ouvimos os primeiros sons do dia. As conversas já eram raras. Um momento daqueles emudece. Não havia palavras ou comentários para dividir espaço com a sensação de liberdade e paz que se fazia presente. Não importava se alguém teria de trabalhar ou estudar em seguida. Viver aquele momento era mais importante do que garantir mais uma noite de sono.

- Baleias! - Jasmin quebrou delicadamente o silêncio e os pensamentos íntimos de cada um indicando algo no meio do oceano. Os que já estavam em leve sono, despertaram para admirar.

Aquilo era o que faltava. Avistamos claramente duas ou três enormes baleias que se movimentavam na superfície.


Ali nascia mais uma linda segunda-feira. Excepcional. Inesquecível. Depois de algumas horas de contemplação, seríamos os primeiros clientes de um simples café na beira da praia. Comeríamos ovos, bacon, vitaminas e pão. Um café da manhã que não costumamos ter. Barato e perfeito para completar um perfeito início de dia.


Não falta muito para eu voltar ao meu local de origem. Não quero deixar que esse tipo de momento deixe de fazer parte das minhas semanas. Se há algo que aprendi nesse continente, é que podemos escolher nossa rotina. E que se a escolha não for boa, não há nada mais importante do que buscar outra. Se a rotina não agradar, deve ser mudada. Essa é a liberdade que normalmente não percebemos ter.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O porquê de viajar

Era o começo da tarde de sábado quando acordávamos após uma longa noite de curto sono. Emily, João e eu não poderíamos ficar em casa com tanto sol do lado de fora. Como fosse o auge do verão, o calor obrigava a evitar meias e tênis. Vestindo chinelo e regata, concluí que a boa estação estava definitivamente chegando. Fomos a Daling Harbour, uma das regiões de lazer mais procuradas de Sydney.

Uma baía contornada por alguns dos melhores restaurantes e bares da cidade, além de zoológico, aquário, cinema, shoppings, centros de eventos, casas noturnas... A paisagem compõe o cenário turístico perfeito. A localização faz Darling Harbour ser parte do coração da cidade. No entanto, mais do que cartão postal para visitantes, é lugar frequentado por todos, sejam turistas ou típicos ozzies. Passar uma tarde lá, apenas perambulando e olhando as gaivotas sobrevoarem as águas do oceano é suficiente para ter um ótimo dia.

Emily, amiga australiana, e João queriam que eu visse a novidade do local. Durante alguns meses, uma obra restringira o acesso a parte da área. Havia poucos dias, porém, que o espaço fora inaugurado. Um parque infantil. Aberto ao público como fosse uma praça de bairro no Brasil. Dezenas ou talvez centenas de crianças corriam, escalavam, escorregavam, giravam e se deslumbravam com o que estava ali disponível para elas. Eu, tão deslumbrado quanto os pequenos, lembrava dos clubes privados no Brasil e me encantava com a ideia de tudo aquilo poder estar ao alcance de todos.



A imagem de pequenas crianças com traços asiáticos, europeus, latinos e australianos tomando banho nas pequenas piscinas e fontes d'água, se atirando na tirolesa e rolando na areia limpa do parque retratou muito daquilo que compõe a vida e a cultura daqui. A qualidade dos brinquedos, o nível de lazer que era oferecido ao público, a igualdade entre raças e sotaques, a mistura de estilos e a indiferença em relação à condição econômica do outro estavam presentes naquele cenário. Naturalmente, as crianças brincavam com qualquer outra criança. Entre os pais, casais negros, brancos, de origem asiática, misturados e homossexuais pareciam observar tudo aquilo com a mesma naturalidade dos pequenos. Essa é a evidência da consciência que predomina aqui em relação às diferenças.

O pouco que se vê de um local, não importa qual seja, é suficiente para perceber que ali há muito para admirar. A possibilidade de comparar as atitudes dessas pessoas e as características desse local, que são novidade para mim, com tudo aquilo que já vi faz aumentar minha vontade de ver outras realidades. A satisfação vem no momento em que consigo entender que o jeito de ser daquele povo não é melhor nem pior que o do outro. Vem quando compreendo que aquelas pessoas não são nada a mais ou a menos do que as outras. A distância que existe e a situação à qual foram submetidas não fazem delas seres diferentes de mim, de um panamenho ou de um russo. Temos os mesmos sentimentos e sensações. Quem disse que aqueles que se divertem em parques modernos são melhores que as crianças que não tem comida ou luz em casa? Alguns tiveram um histórico de desenvolvimento mais favorável. No entanto, nenhum tem mais valor quanto o outro. Posso aprender mais conhecendo uma realidade difícil do que esta mais confortável que me acostumei a ver. Assim quebramos a estúpida existência da arrogância. Assim admitimos a igualdade com quem quer que seja. Deixamos de louvar valores fúteis ostentados pelos que se dizem melhores.

Diferenças são superficiais. Se aponto defeitos, devo saber que há algum motivo para isso. Se descubro os motivos dos defeitos, passarei a entender aquele povo, seja o mais rico ou o mais miserável. Eu estava prestes a escrever que esse entendimento me soava como o que eu teria de mais próximo da definição "oficial" de cultura. Na curiosidade, pesquisei rapidamente. A descrição mais genérica que encontrei foi essa: "cultura é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade".

Viajar me faz sentir como que aprendendo mais do que com um livro nas mãos, em uma aula da faculdade ou assistindo televisão. Sinto-me menos desentendedor da sociedade e mais parte dela. Podemos aprender com tv, leituras ou cursos, mas a mais rica experiência é aquela que te faz por os pés em outras terras e sentir ao máximo o diferente. Não vejo forma mais eficaz nem mais prazerosa de adquirir esse conhecimento do que viajando, vendo com os próprios olhos a realidade e identificando as distinções culturais no próprio local, na raíz de cada povo. Não há local ruim para conhecer. Laos, Piauí e Austrália podem render experiências igualmente interessantes. Temos muito para ver.

Perguntam-me se gostaria de voltar à Austrália. Respondo que sim; rever o que esteve presente durante 2011 seria demais. Mas não seria minha prioridade até que eu vivesse outros sábados ensolarados, vendo crianças brincarem em parques modernos ou em praças sem recurso algum nesses tantos outros lugares que estão aí para serem vistos.