Sem trocar palavra alguma, ele reconheceu: aquela era uma típica aussie. Ele estuda as australianas desde que chegou. É encantado por elas. De fato, elas são demais. 75% delas seguem um padrão de beleza. No máximo, as garotas dessa taxa variam em apenas uma das suas características. Olhos azuis, pele bronzeada, corpo sempre em forma e os cabelos, loiros. Não é apenas isso que se tem para falar a respeito dos cabelos delas. O estilo das madeixas douradas é único, o que faz a minha preferência pelas morenas ser momentaneamente deixada de lado nessas terras. Parece que andam pelas ruas da maneira que levantaram da cama. Não se preocupam em dar forma ao cabelo e desfilam daquele modo. Pode parecer estranho para algumas pessoas, mas para mim e para o Ignácio isso dá um ar irresistível de naturalidade. Ignácio diz se sentir como que acordando ao lado delas quando se aproxima de belas cabeleiras despenteadas. As garotas dos outros 25% não são bonitas, talvez descendentes de povos muito distintos.
O caso é que a garota, que estava de acordo com todos os requisitos das aussies e usando um vestido colado e curtíssimo (como é de costume por aqui), estava olhando para Ignácio. Por cima das folhas do Mx, ele via a garota o observando. Ignácio, conhecedor das atitudes femininas, interpretou o olhar dela como sendo de quem pensava: "vou olhar para ele de maneira que seja discreta, mas que ele perceba para eu ver se ele corresponde". Analisando a situação desse modo, Ignácio endireitou sua postura, certificou-se que seu cabelo estava como deveria, cruzou as pernas com um ar de segurança e retribuiu o olhar. Passadas duas estações, os olhos já haviam se cruzado inúmeras vezes. Não havia tempo para esperar, ela poderia descer nas próximas estações e em seguida ele chegaria ao seu destino. Ignácio deveria agir para alcançar seu objetivo, sair com uma australiana. É bem verdade que ele já havia tido um encontro bem sucedido com uma bela aussie. Aquela do trem, no entanto, não era morena. Seria sua primeira australiana legítima!
North Sydney Station. Ela não desceu. A sorte parecia estar do seu lado. Aquela era a hora, uma parada mais longa. Ele teria tempo de se aproximar e improvisar um papo. Assim que o trem voltou a se deslocar, ele sentou ao lado da garota.
- Olá. Você é australiana, não é? - Ignácio iniciou.
- Sou sim, e você? - o tom sem grande interesse inibiu Ignácio.
- Eu não... - respondeu, perdendo a segurança.
- Então de onde é? - perguntou surpreendentemente impaciente.
- Sou do Brasil - tenso, teve de fazer uma pausa para pensar no improviso - Na verdade eu cheguei há poucas semanas aqui e não conheço muito da cidade, então resolvi perguntar se você tem tempo para dar uma volta por aí um dia desses.
- Tenho sim - Ela respondeu em um tom ainda mais sério. Toda a confiança natural do galanteador havia desaparecido, apesar de ela responder positivamente. A loira demonstrava total desinteresse, sequer havia olhado para ele durante o diálogo. Acima de tudo, Ignácio estava confuso com a reação da garota.
- Então o que você acha de deixar o número do seu celular comigo para a gente marcar alguma coisa, talvez conhecer um restaurante diferente? - Ignácio sabia que poderia estar sendo direto demais, mas não encontrou nada melhor para falar. Ele estava desconfortável, estranhando o diálogo. Porém ainda havia alguma chance; ela havia olhado demais para ele.
- Eu disse que eu tenho tempo para sair, mas não disse que quero gastar esse tempo contigo! - finalmente a australiana havia olhado para Ignácio. No entanto, ele preferia não ter sido alvo daquele olhar. A aussie havia mirado o garoto com uma expressão de superioridade e um tanto de desprezo.
- Mas... - Sem saber o que fazer com tanto constrangimento, Ignácio tinha vontade de pular nos trilhos. Sentia-se realmente inferior sem entender o que se passava - Mas eu achei que você estava me olhando...
- Eu estava esperando você largar o jornal, já que não estava lendo. Esta é a minha estação. Deixe-me ir. Agora posso finalmente ler? - falou arrancando o jornal de Ignácio sem esperar permissão.




























